As apresentações terminaram, meu romance apresentei sozinha. Mas deu tudo certo :)
Como sempre oque mais foi apresentado foram os contos, e depois as poesias e em ultimo os romances, eu particularmente não gosto muito de poesia, eu prefiro música, e pra ler prefiro histórias, daquelas que você se sente como se estivesse no livro, que você realmente tem prazer em ler.
Eu adoro romances e drama.
Como apresentei sozinha o livro olhai os lirios do campo de Érico Veríssimo
a Prof pediu para eu ler a carta de Olívia para Eugenio, segue a carta mais linda e marcante entre muitas que ela escreve a Eugenio (apenas lendo a obra para entender):
"Meu querido: o Dr. Teixeira Torres acha que a intervenção deve ser
feita imediatamente e daqui a pouquinho tenho que ir para o hospital.
Não sei por que me veio a idéia de que posso morrer na mesa de
operações e aqui estou te escrevendo porque não me perdoaria a mim
mesma se fosse embora desta vida sem te dizer umas quantas coisas que
não te diria se estivesse viva.
Há pouco sentia dores horríveis,
mas agora estou sob ação da morfina e é por isto que encontro alguma
tranqüilidade para conversar contigo. Mas estarei mesmo tranqüila? Acho
que sim. Decerto é a esperança de que tudo corra bem e que daqui a
quinze dias eu esteja de novo no meu quarto, com a nossa filha, e meio
rindo e meio chorando venha reler e rasgar esta carta, que então me
parecerá muito tola e ao mesmo tempo muito estranha.
Quero falar
de ti. Lembra-te daquela tarde em que nos encontramos nas escadas da
faculdade? Mal no conhecíamos, tu me cumprimentaste com timidez, eu te
sorri um pouco desajeitada e cada qual continuou o seu caminho. Tu
naturalmente me esqueceste no instante seguinte, mas eu continuei
pensando em ti e não sei por que fiquei com a certeza de que ainda
haverias de ter uma grande, uma imensa importância na minha vida. São
pressentimentos misteriosos que ninguém sabe explicar.
Hoje tens
tudo quanto sonhava: posição social, dinheiro, conforto, mas no fundo
te sentes ainda bem como aquele Eugênio indeciso e infeliz, meio
desarvorado e amargo que subia as escadas do edifício da faculdade,
envergonhado de sua roupa surrada. Continuou em ti a sensação de
inferioridade (perdoa que te fale assim), o vazio interior, a falta de
objetivos maiores. Começas agora a pensar no passado com uma pontinha
de saudade, com um pouquinho de remorso. Tens tido crises de
consciência, não é mesmo? Pois ainda passarás horas mais amargas e eu
chego até a amar o teu sofrimento, porque dele, estou certa, há de
nascer o novo Eugênio.
Uma noite me disseste que Deus não
existia porque em mais de vinte anos de vida não O pudeste encontrar.
Pois até nisso se manifesta a magia de Deus. Um ser que existe mas é
invisível para uns, mal e mal perceptível para outros e duma nitidez
maravilhosa para os que nasceram simples ou adquiriram simplicidade por
meio do sofrimento ou duma funda compreensão da vida. Dia virá em que
em alguma volta de teu caminho há de encontrar Deus. Um amigo meu, que
se dizia ateu, nas noites de tormenta desafiava Deus, gritava para as
nuvens, provocando o raio. Deus é tão poderoso que está presente até
nos pensamentos dos que dizem não acreditar na sua existência. Nunca
encontrei um ateu sereno. Eles se preocupam tanto com Deus como o
melhor dos deístas.
O argumento mais fraco que tenho contra o
ateísmo é que ele é absolutamente inútil e estéril; não constrói nada,
não explica nada, não leva a coisa nenhuma.
Se soubesses como tenho confiança em ti, como tenho certeza na tua vitória final...
Deixo-te
Anamaria e fico tranqüila. Já estou vendo vocês dois juntos e muito
amigos na nova vida, caminhando de mãos dadas. Pensa apenas nisto: há
nela muito de mim e principalmente muito de ti. Anamaria parece trazer
escrito no rosto o nome do pai. É uma marca de Deus, Genoca, compreende
bem isto. Vais contunuar nela: é como se te fosse dado modelar, com o
barro de que foste feito, um novo Eugênio.
Quando eu estava
ainda em Nova Itália. Li muitas vezes o teu nome ligado ao do teu sogro
em grandes negócios, sindicatos, monopólios e não sei mais quê. Estive
pensando muito na fúria cega com que os homens se atiram à caça do
dinheiro. É essa a causa principal dos dramas, das injustiças, da
incompreensão da nossa época. Eles esquecem o que têm de mais humano e
sacrificam o que a vida lhes oferece de melhor: as relações de criatura
para criatura. De que serve construir arranha-céus se não há mais almas
humanas para morar neles?
Quero que abra os olhos, Eugênio, que
acorde enquanto é tempo. Peço-te que pegues a minha Bíblia que está na
estante de livros, perto do rádio, leias apenas o Sermão da Montanha.
Não te será difícil achar, pois a página está marcada com uma tira de
papel. Os homens deviam ler e meditar esse trecho, principalmente no
ponto em que Jesus nos fala dos lírios do campo que não trabalham nem
fiam, e no entanto nem Salomão em toda sua glória jamais se vestiu como
um deles.
Está claro que não devemos tomar as parábolas de
Cristo ao pé da letra e ficar deitados à espera de que tudo nos caia do
céu. É indispensável trabalhar, pois um mundo de criaturas passivas
seria também triste e sem beleza. Precisamos, entretanto, dar um
sentido humano às nossas construções. E, quando o amor ao dinheiro, ao
sucesso nos estiver deixando cegos, saibamos fazer pausas para olhar os
lírios do campo e as aves do céu.
Não penses que estou fazendo o
elogio do puro espírito contemplativo e da renúncia, ou que ache que o
povo devia viver narcotizado pela esperança da felicidade na “outra
vida”. Há na terra um grande trabalho a realizar. É tarefa para seres
fortes, para corações corajosos. Não podemos cruzar os braços enquanto
os aproveitadores sem escrúpulos engendram os monopólios ambiciosos, as
guerras e as intrigas cruéis. Temos de fazer-lhes frente. É
indispensável que conquistemos este mundo, não com as armas do ódio e
da violência e sim com as do amor e da persuasão. Considera a vida de
Jesus. Ele foi antes de tudo um homem de ação e não um puro
contemplativo.
Quando falo em conquista, quero dizer a conquista
duma situação decente para todas as criaturas humanas, a conquista da
paz digna, através do espírito de cooperação.
E quando falo em
aceitar a vida não me refiro à aceitação resignada e passiva de todas
as desigualdades, malvadezas, absurdos e misérias do mundo. Refiro-me,
sim, à aceitação da luta necessária, do sofrimento que essa luta nos
trará, das horas amargas a que ela forçosamente nos há de levar.
Precisamos,
portanto, de criaturas de boa vontade. E de homens fortes como esse teu
amigo Filipe Lobo, que seria um campeão de nossa causa se orientasse a
sua ambição, o seu ímpeto construtor e a sua coragem num sentido social
e não apenas egoisticamente pessoal.
Não sei, querido, mas acho que estou febril. Este entusiasmo, portanto, vai por conta da febre.
Ouço
agora um ruído. Deve ser a ambulância que vem me buscar. Senti um
calafrio e parece que minha coragem teve um pequeno desfalecimento.
Estás vendo o tremor de minha letra? É que sou humana, Genoca,
profundamente humana, tão humana que te confesso corando um pouco
(apesar dos trinta anos e da profissão) que antes de ir para o hospital
eu quisera beijar-te muito e muito.
Anamaria fica com D. Frida. Sei que depois, se eu morrer, virás buscá-la para a nova vida.
Reli
o que acabo de escrever. Estou fazendo um esforço danado para não
chorar. Tolice! Espero que tudo corra bem e que dentro de duas semanas
eu esteja queimando esta carta que já agora me parece um pouco
melodramática.
Antes que me esqueça: na gaveta da cômoda há um
maço de cartas que te escrevi de Nova Itália expressamente para “não te
mandar”. Agora pode lê-las todas. Não encontrarás nada do meu passado,
do qual nunca te falei e sobre o qual tiveste a delicadeza de não fazer
perguntas. É pena. Gostaria que soubesses tudo, que visses como minha
vida já foi feia e escura e como lutei e sofri para encontrar a
tranqüilidade, a paz de Deus.
Adeus. Sempre aborreci as cartas de romance que terminam de modo patético. Mas permite que eu escreva.
Tua para a eternidade.
Olívia"
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